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:: agosto 31, 2004 ::
CURTO E CONSEQÜENTE
(Mariza Lourenço)
Foi num domingo, dia modorrento e morno, como todos os domingos. Foi ao acaso, num zoológico, do outro lado do lago: ele, a mulher e os filhos. Felizes e lindos. E eu, deste lado, irremediavelmente sozinha. Por escolha. Agora e para sempre, sem volta.
Deixei que se fossem. Nada no mundo haveria de perturbar a paisagem bonita, o canto das aves, o ronronar preguiçoso das feras. Os calmos anos de amor construído.
Amores e acidentes de percurso acontecem. Tempestades também, segundo os entendidos.
Minha avó é que sempre esteve certa: o que os olhos não vêem, o coração não sente.
dito por li stoducto
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:: agosto 30, 2004 ::
poeminha cínico
(Márcia Maia)
mesmo o mais cinzento dos domingos
diz-se azul quando amanhece
ainda que em meio a terremotos,
maremotos, tempestades.
mesmo o amor mais corrosivo sabe
a mel quando engatinha
ainda que respingue sangue e fel
a cada passo.
mais importa o prometido que o
que encerra
à luz dos dias, a crua e cínica
e vã realidade.
sendo assim, seguem sempre azuis
e doces os amores e os domingos
: a propaganda é a alma do negócio,
bem se sabe.
dito por li stoducto
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:: agosto 27, 2004 ::
PALHAÇA
(Eliane Stoducto)
O tempo passa
e eu,
palhaça,
no circo maldito
choro risos
dito por li stoducto
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:: agosto 26, 2004 ::
Logias e Analogias
(Cacaso)
No Brasil a medicina vai bem
mas o doente ainda vai mal.
Qual o segredo profundo
desta ciência original?
É banal: certamente
não é o paciente
que acumula capital.
dito por li stoducto
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:: agosto 22, 2004 ::
Acontece que ninguém é de ferro
Acontece que ninguém é de ferro
te garanto que ninguém é de ferro
e a ética não resiste a um berro
nem a honra enfrenta um bom estarro
e os valores caem ao menor esbarro
é, acontece que ninguém é de ferrro
e a moral desaba só com um espirro
e a compostura se esporra
toda a coragem se borra
a verdade é um murro na boca
que só dá um urro de horror
mas o tempo passa e nos ensina
que estar vivo ainda é a coisa mais fina
mesmo com a consciência na latrina
porque ninguém é de ferro
a vida te ferra, você vai à luta
você vai a luta e se mata na guerra
êta sisteminha mais filho da puta
letra de Armando Costa e Eliane Stoducto
musicada por Aécio Flávio
(Tema de Marilin e Minhocão/Quadro da favela)
Da peça teatral FILHOS DA PÁTRIA!
de Armando Costa e Eliane Stoducto
registrada na SBAT e Biblioteca Nacional
dito por li stoducto
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:: agosto 21, 2004 ::
Retrós
(Jota Maranhão / Moacyr Luz)
A eternidade desse amor foi me revelando
Quando a saudade e o rancor são do mesmo pano
Mas eu manchado de licor vivo costurando
Uma presilha que remende este engano
Um meridiano, amor
Até tentei dobrar o cós de arrependimento
Outro novelo em vez de um nó nesse sofrimento
Atarantado no retrós do meu juramento
A gargantilha, tua voz, desalento
Invento um modelo, amor
Naturalmente revistei o meu coração
Aquela nesga que alinhei deve estar no chão
É evidente que evitei desfriar a nossa condenação
Tecer o avesso e tão comum quando em desalinho
A gente esbarra no debrum e arrebenta o linho
O nosso muito é nenhum quando adivinho
E a redondilha acaba num colarinho
Na mancha de vinho, amor
dito por li stoducto
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:: agosto 20, 2004 ::
Cios
(Dôra Limeira)
minha alma minha lama
e todos os bichos do mundo
enlameados e enlaçados
em volta do meu pescoço
num abraço sensual
chorando de dor
molhados de prazer
assim são os orgasmos de Deus
dito por li stoducto
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rescaldo
(Adair Carvalhais Jr.)
afasta-te dos meus
escombros cuidado com os
cacos e as
brasas espalhadas mantenha uma
distância segura ainda
há pedras se desprendendo meu
teto permanece
instável
dispenso 193 o
fogo que você ateou eu
mesmo
apago
dito por li stoducto
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A dor vinis crescendo...
Não sei o que me atacou... Provavelmente ter ouvido a mp3 do Márcio Proença, meu velho parceiro, achada na web. Feliz o tempo? Ou então nostalgia da mais simples e honesta boemia. Quem sabe o excesso de reclusão que, geralmente, transo numa boa e até me dá prazer, se transformou? Ou então a memória da pele - e do fígado - de um uísque nostálgico?
Não sei... Sabe-se lá o quê... Mas a saudade de antigas boemias bateu... Saudade de uma época em que eu era dona do meu nariz em que podia sair e voltar com o dia alto... Ou não voltar. "uísque, dietil, dienpax..."
Pessoas boêmias e com inequívoca vocação para a solidão, com sentimentos ambíguos, duais, pertencentes ao sexo feminino, não deveriam ter filhos. Ou deveriam?
O Poema enjoadinho do poetinha
"Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!"
Mas se não os temos
Como sabê-los? Como sabê-los?
é muito bom para poetas diplomatas do sexo masculino com grana no bolso e mulheres. Mulheres em profusão. Dedicadas, apaixonadas e maternais para cuidar deles, dos filhos deles, trocar as fraldas e comprar e agendar bananas e legumes para a papinha, enquanto o poeta enxuga umazinha, toma uma caipirinha e come uma feijoada com gostosa farofinha. E sofre, e cogita, e filosofa. E pode dar-se ao luxo da ressaca. E internar-se quando a coisa toda empaca.
Não há poesia numa fralda de cocô palpável e olfatável esperando no tanque. Não há poesia no ensaboar em si, apenas nas palavras e no olho do poeta.
"foi, quem sabe, esse disco, esse risco de sombra em teus cílios, foi ou não, meu poema no chão, ou talvez, nossos filhos"
Mas... tirante os filhos que aborrecem, adolescem, nos enlouquecem e controlam, tirando-nos a paz e o prumo e que, provavelmente, depois se vão para o quase nunca mais (quando, meu deus, quando???? que seja já!) sinto uma angústia prosaica.
Uma angústia de não poder ouvir mais meus vinis... tenho muitos vinis mas o raio do meu som só toca CDs. Toca três CDs e nenhum vinil! Vinis de amigos, vinis com dedicatórias, vinis com minhas letras, música de amigos...
Vinis que me transportam no tempo, nas pessoas, nos afetos, nas minhas milhões de facetas interiores, e que jazem nas prateleiras do teto... Daqueles, que nunca vão ter regravações em CDs porque são raros, desconhecidos, de amigos, vinis de colecionador.
Que lástima... Estou velha, arcaica, senil como o vinil dos nossos embalos de sábado e sexta-feira à noite...
O vinil que contava nossas histórias pessoais e passionais, com a faixa arranhada e gasta - quase furada - de tanto ouvir quando se chegava em casa de porre depois de ter perdido o suposto grande amor... Aquele, do qual conhecíamos os arranhões e cicatrizes, se foram... E hoje eu choro a perda dos velhos vinis com suas heranças, histórias e legados febris.
12/03/2004
dito por li stoducto
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