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:: setembro 25, 2004 ::
MIRA
para minha mãe
Mira confusa
insana
absurda
Baila sozinha
tão triste
abstrusa
O tempo abstrato
tragando
sua mira
Eliane Stoducto
25/09/2004
dito por li stoducto
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:: setembro 17, 2004 ::

Dolores
(eliane stoducto)
Nem tudo na vida são flores, Dolores
como na vida, nem tudo são dores
Dolores da vida, em cada esquina
a nos espreitar
Dolores do mundo,
a cada segundo
o peito a sangrar
Dolores sofridas,
ao longo da vida
nos fazem chorar
Dolores que nascem
Dolores que morrem
Dolores mutantes
Dolores gestantes
Dolores do parto
Dolores que partem,
deixando ficar
junto com as marcas,
espinhos, Dolores
e um ramo de flores
jasmim, margarida
ou um simples miosótis
como a nos dizer:
"forget-me-not"
Nem tudo na vida são dores, Dolores
como na vida, nem tudo são flores....
dito por li stoducto
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:: setembro 09, 2004 ::

(nálu nogueira)
ai de mim. é só o que penso.
ai do meu riso. ai das minhas esperanças.
uma expressão tão engraçada, ai. tão tacanha.
eu fico me perguntando quem foi que inventou e porque achou que traduzia alguma dor. não traduz.
dor de verdade não ai, nem nunca.
mas ai.
ai do meu espanto, ai do meu sorriso, ai do meu amor, ai das coisas que eu sonhei.
ai de mim, meu deus,
ai de mim.
dito por li stoducto
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:: setembro 07, 2004 ::

Dia seguinte
(Cida Sousa)
Dia triste e molhado,
tedioso e frio...
- de sol , nem sombra-
Dia perfeito prá se cortar os pulsos...
dito por li stoducto
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:: setembro 05, 2004 ::

Tereza
(eliane stoducto)
(para Maria Tereza, amiga cigana beleza, no dia do seu aniversário)
Maria tem reza forte
Maria Tereza cigana
gitana que lê a sorte
na palma da minha mão.
Tereza forte, Maria
que anda na corda bamba,
às vezes chora “na boa”
de outras ri de tristeza,
descuidando dos poderes
da combatente Tereza
cigana de reza forte
que exorcizou a má sorte
da palma da própria mão.
25/10/95
dito por li stoducto
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:: setembro 02, 2004 ::
Noites
(Vito Cesar Fontana)
Sigo noites pelas ruas, sou deserto.
Meu ponto certo é tão vago quanto visões de algum futuro, e sigo perto, estremece-me o corpo, pois um coração arredio ali se esconde e me cobre de arrepios, como quando nada vejo no espio aberto do mundo.
Sigo pessoas e as deixo pensar que as sigo, seguindo assim meu próprio passo, que sendo assim é só meu, mas que compartilho.
Sou incerto como um brilho repentino que corre nas vitrines passo imperceptível, impossível estar ali eu nem estando, mas passando como as diferentes águas de um mesmo rio que banha o intruso para se tornar filosofia, sigo noites porque as tenho dentro.
Sou esperto e me iludo com o veludo de fechar os olhos no vento morno que vem do mar, fingindo ser calmaria, a tempestade primal que a noite encanta com lendas de adornar crianças.
Sou a natureza bestial da besta que vive em mim, muda e silenciosamente branca, assim como devem ser todas as encarnações do eu profundo... Eu quero mundo, no tamanho que me cabe...
Sigo noites porque me foge o sono e o sono é o alimento do sonho e o sonho é apenas uma verdade que ainda não fiz.
Sou um processo em andamento, um paradigma , uma causa, um efeito, uma dor e uma faca que corta o escuro do escuro e faz jorrar o sangue da noite, com suas estrelas, sobre o princípio onde tudo se inicia.
Sigo noites pois procuro mulheres e sua graça, suas garras, pois tenho paixão por elas e me embriago delas, com suas tolices, com seus cheiros... Sou a doença da paixão delas e as amo como o açúcar e o sal de cada gozo e cada lágrima, no etéreo que vem delas e a elas, e somente a elas, dedico o pedaço de mim que é narciso e mesmo assim ainda é belo.
Sigo noites porque me escondo e assim sendo exponho o todo, o tudo, o puro, esse pequeno mundo que viaja cada segundo do meu peito e me deleito com esse fato , aqui dentro, pois ninguém sabe...e riem assim mesmo...
Não sou quem penetra, sou só quem sacia, sem ser poeta, sendo só poesia, sou quem destempera toda alegria...
Sou um, apenas um, como eu, que caminha pelo mundo, com esse passo meu e por onde sigo estradas de outros.
Sigo noites como a não querer mais manhãs, onde nada vejo e tenho medo...Fico nu em pelo...
Sigo noites por pura insônia, a insônia dos alucinados, da sina dos leprosos, sigo noites pois elas são vazias e encerram seus pequenos mistérios e segredos...
Sou a descoberta da procura, o impossível da aventura, aquele que hoje não mas amanhã sempre...
A santidade da loucura...e todos me vêem com uma propriedade que somente eles vêem e passo, no pisco do olho, pelo seu mundo morno e confortável, sendo uma distração qualquer que entorpece a rotina , por segundos...
Sou quase nada no mundo, sou eu, só o defeito congênito, amorfo, difícil como uma mancha, marcado por um deus de terras em que nem mesmo existo... E rasgo o ventre daquela que me deu em parto difícil, a esse mesmo mundo e que morreu para que eu tivesse vida... Chupo seus peitos imaginários nesse hoje de lembranças, na busca do mel e do sangue que me alimente o corpo e me faça um eu diferente, desalucinado, mas ainda assim, suficientemente louco para tornar possível o não à dor de não ser feliz.
Sigo noites quando não há perdão, quando não há luar sobre os homens, quando tudo parece estar por um fio de aço que se estende ao infinito, tudo assim ... Perdido e mesmo assim ainda lindo. "Nothing is real" assim, for ever...
Sou um conduto de coisas que se espalham por todos os sentidos e navegam a noite, enganando o dia, encantando a farra, procurando a guia, encarnando a fala de todos os que dizem o que não podiam, enxugando a lágrima de quem pensa e chora por pensar que chora sua fantasia, sou alguém que fica, alguém que ninguém lembra, pois o tempo passa...
O tempo sempre e apenasmente passa...
dito por li stoducto
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