|
:: novembro 28, 2004 ::

Ab sinto
(eliane stoducto)
Ab duzo
o pensamento
obsessivo
ab sorvo
losna, anis
sorvo
ab sinto
me ab straio
dessa dor
ab soluta
dito por li stoducto
::permalink::
:: novembro 27, 2004 ::

O HOMEM
(Mariza Lourenço)
não havia homem que se igualasse a ele. e à sua pele. tão branca e cheia de promessas (feito lua quando nasce).
as roupas caiam-lhe impecavelmente sobre o corpo, moldando-se a ele com íntima reverência.
quem o viu não permaneceu imune à beleza de seus traços; cuidadosamente desenhados por alguma mão divina.
e quem, sublimado por tamanha beleza, haveria de encontrar qualquer resquício de humana imperfeição?
mas havia.
para além daqueles olhos emoldurados por espessas cortinas de negros cílios, havia ânsia. misturada a uma fome secular.
quem o viu, soube. e não conseguiu escapar.
e não fora essa fome, jamais teria penetrado as minhas noites.
e não fora a ânsia, jamais teria se apossado de minha alma.
tão ansiosa e faminta quanto a dele.
beijou-me.
e o gosto era de sangue.
invadiu-me.
já não era um Homem.
em proseando com Mariza
dito por li stoducto
::permalink::
:: novembro 19, 2004 ::
Preparativos de viagem
Abriu o vinho, cortou o pão, o queijo, arrumou os copos e a faca na bandeja. Nua, foi até ele. Que, como sempre, perguntou para que tanta frescura. Não respondeu. Enfiou-lhe a faca à esquerda do esterno. Até o cabo. Repetiu o movimento. Ele ficou imóvel, grito parado na boca aberta. Depois, lavou a faca. Guardou-a no estojo de jacarandá. Vestiu-se de seda preta. Checou o dinheiro e a passagem. E, antes de partir para uma vida nova, comeu o queijo e bebeu o vinho. Afinal, de sua casa ninguém jamais saíra com fome. Não haveria de ser a primeira.
Márcia Maia
em mudança de ventos
dito por li stoducto
::permalink::
:: novembro 11, 2004 ::
Brisa Marinha
Stéphane Mallarmé (1842-1898)
A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus imensos.
Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,
Impede o coração de submergir no mar
Ó noites! nem a luz deserta a iluminar
Este papel vazio com seu branco anseio,
Nem a jovem mulher que preme o filho ao seio.
Eu partirei! Vapor a balouçar nas vagas,
Ergue a âncora em prol das mais estranhas plagas!
Um tédio, desolado por cruéis silêncios,
Ainda crê no derradeiro adeus dos lenços!
E é possível que os mastros, entre as ondas más,
Rompam-se ao vento sobre os náufragos, sem mas-
Tros, sem mastros, sem ilhas férteis, a vogar...
Mas, ó meu peito, ouve a canção que vem do mar!
do livro"MALLARMÉ", traduções e textos de Augusto de Campos, Decio Pignatari e Haroldo de Campos, editora Perspectiva
dito por li stoducto
::permalink::
:: novembro 07, 2004 ::
Estou cego a todas as músicas...
(Arnaldo Antunes)
Estou cego a todas as músicas,
Não ouvi mais o cantar da musa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o peito que me cobre a blusa.
Já a mim nenhuma cena soa
Nem o céu se me desabotoa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como a língua cobre de saliva
Cada dente que sai da gengiva.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o sangue cobre a carne crua,
Como a pele cobre a carne viva,
Como a roupa cobre a pele nua.
Estou cego a todas as músicas.
E se eu canto é como um som que sua.
In: ANTUNES, Arnaldo. Tudos. 3.ed. São Paulo: Iluminuras, 1993
dito por li stoducto
::permalink::
Observando
(eunice arruda)
Sim
há
as horas de trégua
Quando se afiam
as facas
dito por li stoducto
::permalink::
|