em desa LI nho



 

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:: junho 29, 2005 ::

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LICANTROPIA


(goulart gomes)


Ardo
banhado em gasolina
fogo que consome
e não termina;
das Danaides, o tonel
fígado de Prometeu
de Sísifo, a pedra
por um beijo seu

rasgo as vestes
o pêlo, a pele
e o corvo grita
(...)
sudorese, frio, calor
arrepio, asfixia
e um uivo
(...)
onde estou? busco, perco
suas mãos, suas coxas,
seus cabelos
qualquer parte tangível
do seu corpo
os seus olhos, o seu jogo
o seu cheiro
que me afague
que controle essa chama

esse peito que se agita
esse vício que lhe clama
esse desejo que me acaba
esse homem
que lhe quer
como mulher
em sua cama

qualquer coisa
qualquer endorfina
que cesse o pulso
congele-me a retina
contenha-me a respiração

uma pedra, uma figa
um chá de alumã
que cure a febre
terçã
uma gota de menarquia
sobre o meu lábio
que pare a agonia
o desejo, a vontade
pois se sou só metade
prefiro nada ser

limbo, vácuo, dissolução
ah! horrível discrasia
sede de Narciso
que nenhum lago sacia

eu quero um tiro
de misericódia
em pleno coração
eu só quero um gozo
que me faça lobo:
- MALDIÇÃO!


dito por li stoducto


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:: junho 17, 2005 ::

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COMO NO CÉU

(fabrício carpinejar)



As cartas de amor
deveriam ser fechadas
com a língua.
Beijadas antes de enviadas.
Sopradas. Respiradas.
O esforço do pulmão
capturado pelo envelope,
a letra tremendo
como uma pálpebra.
Não a cola isenta, neutra,
mas a espuma, a gentileza,
a gripe, o contágio.
Porque a saliva
acalma um machucado.

As cartas de amor
deveriam ser abertas
com os dentes.


dito por li stoducto


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:: junho 08, 2005 ::

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BLASFÊMIA


(cecília meireles)



SENHORA DA VÁRZEA,
Senhora da Serra!
pelos teus santuários,
com cinza na testa,
irei arrastando
os joelhos e a reza;
subindo e descendo
ladeiras de pedra,
sustentando andores,
carregando velas,
para me livrares,
Senhora, da lepra!

Senhora da Várzea,
Senhora da Serra!
terás mais altares,
terás mais capelas,
sinos de mais bronze,
mais flores, mais festas,
mais círios, mais rendas,
e de ouro coberta
brilharás, Senhora,
de fazer inveja
a todas as santas
que há na glória eterna!

Matei minha filha:
mas era tão bela!
Roubei cinco noivas:
mas o amor não cega?
E Deus não perdoa
a quem se confessa?
Ergui seis igrejas:
nenhuma te alegra?
Todas em memória
dessas seis donzelas
que por mim perderam
seu corpo, na terra...
Meus crimes, paguei-os
com brincos, fivelas,
coroas de prata,
e mais que te dera,
para me livrares,
Senhora, da lepra!

Senhora da Várzea!
Senhora da Serra!
pede-me por sonhos:
darei quanto peças
- mais ouro, mais prata,
mais luzes, mais telas.
Maior que os meus crimes
é a minha promessa.

Vejo com os meus olhos
como degenera
a carne que tive.
Por que me desprezas,
Senhora da Várzea?
Do mal que me cerca,
por que não me livras,
Senhora da Serra?
Mão com que matei,
hoje se me entreva.

Sinto desmanchada
em cinza funesta
a boca de outrora.
E a língua me emperra
aquela peçonha
de que seis donzelas
receberam morte,
lindas e sinceras.

Senhora da Várzea!
Senhora da Serra!
Paguei meus pecados,
- e não me libertas?
Calcaste dragões,
dominaste feras,
e ao mal que me oprime,
Senhora, me entregas?
Por que não me salvas?
Que ordenas? Que esperas?

Ah, santa insensível,
não sofres, não pecas!
Senhora da Várzea!
Senhora da Serra!
Devolve o ouro e a prata
das minhas ofertas!
Que o vento arrebente
portas e janelas
das tuas igrejas!
E fiquem nas trevas
ou sejam levados
pelas labaredas
altares queimados
e naves desertas!
Caiam no teu peito
mais agudas setas!
Arda em brasa o ramo
que nas mãos carregas!

Nunca mais se arrastem
meus joelhos nas pedras,
nem a minha boca
suspire mais rezas!
Nunca mais andores,
nem círios nem festas!
Dei-te seis igrejas:
que me deste? Lepra!

Senhora da Várzea!
Senhora da Serra!
Grito aos quatro ventos
do céu e da terra:
Conheci seis virgens:
nenhuma severa
como tu, nem fria,
serena e perversa!
Seis virgens matei!
Sou morto por esta!
Dei-lhe seda e ouro
que às outras não dera!
Soluçar de joelhos,
- só diante dela!
Morro impenitente,
fazendo-lhe guerra.
Que o fogo profundo
lamba a minha lepra!
Seja eu todo cinza,
no tempo dispersa,
negra cinza de ódio
que te envolve e nega,
Senhora da Várzea,
Senhora da Serra,
ó virgem das virgens,
sem piedade - e ETERNA!



in "Mar Absoluto e Outros Poemas"


dito por li stoducto


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:: junho 06, 2005 ::

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"olho muito tempo o corpo de um poema"

(ana cristina cesar)



olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas


dito por li stoducto


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:: junho 01, 2005 ::

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Carne de pescoço


(eliane stoducto)


Gosto dos malucos, doidos, desgraçados
exagerados, tristes, apaixonados
que praticam um suicídio tão diário
por sentirem tanta sede e gana de viver

Gosto dos que crêem na própria insanidade
por saberem-se humanos, limitados, miseráveis
e com isto exercitam a humildade
conscientes de estarem aprisionados
nesta pobre casca humana até morrer

Não gosto de ares de superioridade
(os parâmetros são tênues e precários!)
não concedo a ninguém autoridade
– Oh, esses deuses e deusas sectários –
pontificando sobre a vida e o que fazer

Pois na minha prisão de carne e osso
sou única, sou livre, sou colosso
sou meu anjo e meu algoz, fora-da-lei
sou coisa feita e carne de pescoço.


dito por li stoducto


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